Esta postagem tem três partes. Eu começo comentando um pouco
a respeito do filme “Parasita”: contexto, enredo, links. Na sequência, eu tomo
o mote principal do filme, que é uma reflexão sobre o capitalismo, e entro na
questão das desigualdades sociais, a fim de fazer rápidas comparações com a
nossa realidade. Por fim, é no meio dessas comparações que aparece o tema de
nosso primeiro debate. Acompanhe!
Um filme, várias
leituras
“Parasita”, do diretor
sul-coreano Bong Joon-ho, já tinha faturado a Palma de Ouro em Cannes (França)
e outros prêmios importantes em vários países. Agora em fevereiro, nos Estados
Unidos, contrariou expectativas na festa do Oscar, levando o prêmio de melhor
filme, direção, roteiro e filme internacional. Foi uma surpresa. Nada mal para
quem não era cotado como favorito.
Porém, não foi por acaso que o filme recebeu todos esses
prêmios. A película é uma mostra rica e complexa do nosso tempo, marcado pelo capitalismo
globalizado, pelo avanço da concentração de renda no mundo inteiro e
consequentemente por níveis de desigualdade cada vez mais altos. Apesar de o
filme ser sul-coreano, a realidade por ele retratada pode ser facilmente
reconhecida em vários países mundo afora, inclusive o Brasil. Aliás, quem diria
que a Coréia do Sul, tão elogiada por nós e lembrada como modelo de educação,
tivesse o seu lado escuro, ou seja, o seu porãozinho para esconder coisas
indesejáveis?
Se você quiser saber por que “Parasita” é sucesso de crítica
e público, clique aqui.
Se assistiu o filme e gostaria de ouvir alguns detalhes que certamente passaram
despercebidos, clique
aqui. Se quiser acompanhar uma pitada de psicanálise na avaliação do prof.
Christian Dunker sobre o filme, clique aqui. (Atenção: Dunker
solta bastante spoiler!) Por fim, se quiser ler a análise bem completa de Fábio
Palácio para a Ilustríssima, da
Folha, clique
aqui.
Para os nossos interesses, vale destacar que o filme é riquíssimo
em cruzamentos.
Ele apresenta personagens complexos, numa atmosfera em que não
são apenas famílias que se cruzam, mas é uma hierarquia social que se choca. Não
podemos discutir apenas a perspectiva econômica, esquecendo-nos da estética, na
qual aliás o diretor explora de forma brilhante o suspense, o cômico e o
trágico, brindando-nos com um final absolutamente inesperado.
De forma bem arranjada, elementos como janelas, porões,
odores e a própria chuva trazem uma conotação própria, que nos leva a refletir
sobre como a realidade sofre variações cruéis, conforme a posição de quem
observa. O filme se assenta numa dualidade: existe o que se mostra, o que
aparece. Mas por trás ou por debaixo disso, existe muito mais.
Desigualdade: das
telas para a vida real
Bong Joon-ho disse que seu filme tratava sobre o
capitalismo. Em tempos de polarização exacerbada, “Parasita” explora bem os contrastes,
ao mesmo tempo que utiliza a linguagem metafórica de forma magistral. Pensando
no título do filme e olhando as duas famílias tão díspares, a gente se pergunta
quem suga quem nessa relação. Por outro lado, poderíamos indagar quem é que tem
consciência da realidade ali? Quem a vive de fato?
Para a maioria dos brasileiros, a realidade apresentada no
filme tem muito de parecido com a sua própria. No país que é um
dos campeões mundiais em desigualdade e concentração de renda, a vida da
maioria dos brasileiros se resume a uma luta desesperada e permanente pela
sobrevivência. É um insulto ver instituições financeiras como os bancos
faturando lucros recordes, enquanto milhões de pobres que compõem a parte
mais vulnerável do tecido social sequer tem a
garantia de um bolsa-família. No Brasil, segue intacta a tendência
“os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”. Mesmo a
desigualdade sendo escandalosa, para além das reportagens de jornal, o que ela
provoca talvez seja uma soma esparsa de indignação e queixas, nada além disso,
nada que abale o status quo. Com
dizem os personagens de Parasita, o
jeito é cada um ‘pensar um plano’ e se virar como pode.
Se a vida nas telas não está tão distante da vida real, o
filme de Bong Joon-ho introduz uma coisa que nos inquieta: por que as famílias
pobres, que vivem em imundos porões (ou favelas), partilhando da mesma subvida
e sofrendo os mesmos ais, são incapazes de se unir? No Brasil, como uma
população tão grande e tão humilhada, ainda sofre sozinha e isolada? Por que
não existe solidariedade entre os pobres?
Disparidades e paradoxos
Em um país de condições tão díspares como o nosso, é
impossível não se horrorizar com determinadas coisas. Por exemplo, a gente viu
final do ano passado que o
aumento do Fundo Eleitoral será custeado com recursos retirados da educação e
da saúde. Isso mesmo! Para quem estava distraído quando essa veio à tona,
confira aqui: de 1,7 bilhões, o fundo foi engordado para 3,8 bilhões. O
Congresso votou e o presidente chancelou.
No país em que mais
da metade da população vive com R$413,00 por mês, os políticos conseguem
com algumas canetadas auferir uma quantidade astronômica de dinheiro para suas
campanhas. Eu te pergunto: você lembra de ter visto ou ouvido protestos a respeito disso?
As disparidades são tantas no Brasil que nós poderíamos
elencar uma miríade de índices apontando contrastes estarrecedores, verdadeiros
absurdos, que nos fazem pensar como é possível um estado de direito onde alguns
são e outros não são, onde alguns poucos têm para desperdiçar enquanto a
maioria é relegada a uma condição de mendicância.
Ok! Mas se há pessoas que passam por humilhações para
receber a ninharia de um bolsa-família, por exemplo, há outras que têm recursos
ou procuram meios de fazer valer o seu direito, exigindo do estado a devida
atenção para o seu problema individual. E conseguem.
Um exemplo disso está na história de Rafael Fávaro que você
vai ver a seguir.
Assim como no quesito assistência social, o estado
brasileiro também é pouco zeloso na saúde. Todos temos conhecimento de como o
SUS, embora de acesso democrático, é marcado por filas, por demora no
atendimento e por uma lista de espera de meses ou até anos quando a demanda
envolve cirurgia. A coisa varia conforme o estado, mas em toda parte há sinais
de calamidade ou mesmo de colapso no sistema.
O caso de Rafael é especial, sua doença é rara. Porém, enquanto
milhões esperam para ter o seu direito à saúde atendido – e algumas pessoas chegam
a morrer esperando – há os que, como ele, processam o estado para agilizar e
garantir o acesso a remédios de alto custo. Índices
mostram que têm aumentado o número de pessoas que estão fazendo isso, ou
seja, recorrendo à justiça para garantir tratamento médico.
O fato de o Estado ser obrigado a bancar tratamentos caros
para alguns indivíduos, exclusivamente, levanta uma questão sensível. Se não
temos dinheiro para garantir tratamento básico a milhares ou milhões de pessoas
que procuram o serviço diariamente, porque devemos desembolsar uma grana para custear
o tratamento de um indivíduo apenas? A concessão do benefício, ainda que por
medida judicial, implica num paradoxo. É isso que vamos debater.
Encaminhamentos para
o debate
Primeiro de tudo, leia a reportagem daRevista Época sobre o paciente de 800 mil. Aqui se encontra a história de Rafael
Fávaro e a problemática que enseja o nosso debate.
Leia com bastante atenção. De preferência, imprima a reportagem.
Nosso debate vai funcionar da seguinte forma.
Vamos dividir a sala em dois grupos.
Em linhas gerais, o primeiro deles vai:
Nosso debate vai funcionar da seguinte forma.
Vamos dividir a sala em dois grupos.
Em linhas gerais, o primeiro deles vai:
- buscar na legislação brasileira uma fundamentação para o
direito à vida e à saúde,
- defender o direito individual,
- defender o direito individual,
- sustentar por que Rafael está certo em processar
o Estado.
O segundo grupo,
em contrapartida, vai:
- utilizar o cálculo utilitarista para apontar limites do direito individual;
- apresentar uma perspectiva mais coletivista que, em sintonia com a realidade brasileira, faça contrapontos ao direito individual;
- buscar uma fundamentação que justifique, do ponto de vista
orçamentário e de outros pontos de vista, porque não é correto o Estado bancar
tratamentos caros para um ou outro indivíduo.
Atenção: os grupos têm de ter um número equivalente de pessoas. Os alunos da turma devem formar uma lista e articular previamente esse equilíbrio. Quando eu chegar para o debate, os grupos já devem estar montados, com todos os alunos inscritos. Se isso não tiver acontecido, para fins de rápido encaminhamento, eu dividirei a turma em pares e ímpares. Os pares constituirão o grupo 1, os ímpares, o grupo 2.
Os critérios para o debate são os seguintes:
- Ouvir o outro até o final, em silêncio, sem interrompê-lo;
- Prestar atenção no que o outro diz, ponderar, refletir se ele não tem razão no que fala;
- Fazer uso da palavra de forma argumentativa, ou seja, trazendo elementos sólidos, resultantes de reflexão e pesquisa. Não serão tolerados rodeios, improvisações ou brincadeiras;
- Utilizar, durante a arguição, uma referência ao filme "Parasita";
- Em hipótese alguma levar a discussão para o lado pessoal. Lembre-se de que estamos debatendo ideias e não pessoas;
- O objetivo desta atividade é desenvolver nosso potencial argumentativo, explorando os pontos, enriquecendo e ampliando a conversa. Não haverá "vencedores" do debate.
Atenção: os grupos têm de ter um número equivalente de pessoas. Os alunos da turma devem formar uma lista e articular previamente esse equilíbrio. Quando eu chegar para o debate, os grupos já devem estar montados, com todos os alunos inscritos. Se isso não tiver acontecido, para fins de rápido encaminhamento, eu dividirei a turma em pares e ímpares. Os pares constituirão o grupo 1, os ímpares, o grupo 2.
Os critérios para o debate são os seguintes:
- Ouvir o outro até o final, em silêncio, sem interrompê-lo;
- Prestar atenção no que o outro diz, ponderar, refletir se ele não tem razão no que fala;
- Fazer uso da palavra de forma argumentativa, ou seja, trazendo elementos sólidos, resultantes de reflexão e pesquisa. Não serão tolerados rodeios, improvisações ou brincadeiras;
- Utilizar, durante a arguição, uma referência ao filme "Parasita";
- Em hipótese alguma levar a discussão para o lado pessoal. Lembre-se de que estamos debatendo ideias e não pessoas;
- O objetivo desta atividade é desenvolver nosso potencial argumentativo, explorando os pontos, enriquecendo e ampliando a conversa. Não haverá "vencedores" do debate.
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Clipping:
Um único remédio custou ao SUS R$2,44 bilhões em 11 anos, revela estudo
(Folha de S. Paulo - Cláudia Colucci - 02/03/2020)
Patente de um dos remédios mais caros do mundo agora é pública
(Agência Brasil - 20/04/2018)
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