quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Filme "Parasita" e primeiro debate (2ºs anos)


Esta postagem tem três partes. Eu começo comentando um pouco a respeito do filme “Parasita”: contexto, enredo, links. Na sequência, eu tomo o mote principal do filme, que é uma reflexão sobre o capitalismo, e entro na questão das desigualdades sociais, a fim de fazer rápidas comparações com a nossa realidade. Por fim, é no meio dessas comparações que aparece o tema de nosso primeiro debate. Acompanhe!

Um filme, várias leituras

 “Parasita”, do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, já tinha faturado a Palma de Ouro em Cannes (França) e outros prêmios importantes em vários países. Agora em fevereiro, nos Estados Unidos, contrariou expectativas na festa do Oscar, levando o prêmio de melhor filme, direção, roteiro e filme internacional. Foi uma surpresa. Nada mal para quem não era cotado como favorito.

Porém, não foi por acaso que o filme recebeu todos esses prêmios. A película é uma mostra rica e complexa do nosso tempo, marcado pelo capitalismo globalizado, pelo avanço da concentração de renda no mundo inteiro e consequentemente por níveis de desigualdade cada vez mais altos. Apesar de o filme ser sul-coreano, a realidade por ele retratada pode ser facilmente reconhecida em vários países mundo afora, inclusive o Brasil. Aliás, quem diria que a Coréia do Sul, tão elogiada por nós e lembrada como modelo de educação, tivesse o seu lado escuro, ou seja, o seu porãozinho para esconder coisas indesejáveis?

Se você quiser saber por que “Parasita” é sucesso de crítica e público, clique aqui. Se assistiu o filme e gostaria de ouvir alguns detalhes que certamente passaram despercebidos, clique aqui. Se quiser acompanhar uma pitada de psicanálise na avaliação do prof. Christian Dunker sobre o filme, clique aqui. (Atenção: Dunker solta bastante spoiler!) Por fim, se quiser ler a análise bem completa de Fábio Palácio para a Ilustríssima, da Folha, clique aqui.

Para os nossos interesses, vale destacar que o filme é riquíssimo em cruzamentos.
Ele apresenta personagens complexos, numa atmosfera em que não são apenas famílias que se cruzam, mas é uma hierarquia social que se choca. Não podemos discutir apenas a perspectiva econômica, esquecendo-nos da estética, na qual aliás o diretor explora de forma brilhante o suspense, o cômico e o trágico, brindando-nos com um final absolutamente inesperado.

De forma bem arranjada, elementos como janelas, porões, odores e a própria chuva trazem uma conotação própria, que nos leva a refletir sobre como a realidade sofre variações cruéis, conforme a posição de quem observa. O filme se assenta numa dualidade: existe o que se mostra, o que aparece. Mas por trás ou por debaixo disso, existe muito mais.


Desigualdade: das telas para a vida real

Bong Joon-ho disse que seu filme tratava sobre o capitalismo. Em tempos de polarização exacerbada, “Parasita” explora bem os contrastes, ao mesmo tempo que utiliza a linguagem metafórica de forma magistral. Pensando no título do filme e olhando as duas famílias tão díspares, a gente se pergunta quem suga quem nessa relação. Por outro lado, poderíamos indagar quem é que tem consciência da realidade ali? Quem a vive de fato?

Para a maioria dos brasileiros, a realidade apresentada no filme tem muito de parecido com a sua própria. No país que é um dos campeões mundiais em desigualdade e concentração de renda, a vida da maioria dos brasileiros se resume a uma luta desesperada e permanente pela sobrevivência. É um insulto ver instituições financeiras como os bancos faturando lucros recordes, enquanto milhões de pobres que compõem a parte mais vulnerável do tecido social sequer tem a garantia de um bolsa-família. No Brasil, segue intacta a tendência “os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”. Mesmo a desigualdade sendo escandalosa, para além das reportagens de jornal, o que ela provoca talvez seja uma soma esparsa de indignação e queixas, nada além disso, nada que abale o status quo. Com dizem os personagens de Parasita, o jeito é cada um ‘pensar um plano’ e se virar como pode.

Se a vida nas telas não está tão distante da vida real, o filme de Bong Joon-ho introduz uma coisa que nos inquieta: por que as famílias pobres, que vivem em imundos porões (ou favelas), partilhando da mesma subvida e sofrendo os mesmos ais, são incapazes de se unir? No Brasil, como uma população tão grande e tão humilhada, ainda sofre sozinha e isolada? Por que não existe solidariedade entre os pobres?

Disparidades e paradoxos

Em um país de condições tão díspares como o nosso, é impossível não se horrorizar com determinadas coisas. Por exemplo, a gente viu final do ano passado que o aumento do Fundo Eleitoral será custeado com recursos retirados da educação e da saúde. Isso mesmo! Para quem estava distraído quando essa veio à tona, confira aqui: de 1,7 bilhões, o fundo foi engordado para 3,8 bilhões. O Congresso votou e o presidente chancelou.
No país em que mais da metade da população vive com R$413,00 por mês, os políticos conseguem com algumas canetadas auferir uma quantidade astronômica de dinheiro para suas campanhas. Eu te pergunto: você lembra de ter visto ou ouvido protestos  a respeito disso?

As disparidades são tantas no Brasil que nós poderíamos elencar uma miríade de índices apontando contrastes estarrecedores, verdadeiros absurdos, que nos fazem pensar como é possível um estado de direito onde alguns são e outros não são, onde alguns poucos têm para desperdiçar enquanto a maioria é relegada a uma condição de mendicância.

Ok! Mas se há pessoas que passam por humilhações para receber a ninharia de um bolsa-família, por exemplo, há outras que têm recursos ou procuram meios de fazer valer o seu direito, exigindo do estado a devida atenção para o seu problema individual. E conseguem.
Um exemplo disso está na história de Rafael Fávaro que você vai ver a seguir.  

Assim como no quesito assistência social, o estado brasileiro também é pouco zeloso na saúde. Todos temos conhecimento de como o SUS, embora de acesso democrático, é marcado por filas, por demora no atendimento e por uma lista de espera de meses ou até anos quando a demanda envolve cirurgia. A coisa varia conforme o estado, mas em toda parte há sinais de calamidade ou mesmo de colapso no sistema.

O caso de Rafael é especial, sua doença é rara. Porém, enquanto milhões esperam para ter o seu direito à saúde atendido – e algumas pessoas chegam a morrer esperando – há os que, como ele, processam o estado para agilizar e garantir o acesso a remédios de alto custo. Índices mostram que têm aumentado o número de pessoas que estão fazendo isso, ou seja, recorrendo à justiça para garantir tratamento médico.

O fato de o Estado ser obrigado a bancar tratamentos caros para alguns indivíduos, exclusivamente, levanta uma questão sensível. Se não temos dinheiro para garantir tratamento básico a milhares ou milhões de pessoas que procuram o serviço diariamente, porque devemos desembolsar uma grana para custear o tratamento de um indivíduo apenas? A concessão do benefício, ainda que por medida judicial, implica num paradoxo. É isso que vamos debater.

Encaminhamentos para o debate

Primeiro de tudo, leia a reportagem daRevista Época sobre o paciente de 800 mil. Aqui se encontra a história de Rafael Fávaro e a problemática que enseja o nosso debate.  
Leia com bastante atenção. De preferência, imprima a reportagem.

Nosso debate vai funcionar da seguinte forma.
Vamos dividir a sala em dois grupos.

Em linhas gerais, o primeiro deles vai:
- buscar na legislação brasileira uma fundamentação para o direito à vida e à saúde,
- defender o direito individual,
- sustentar por que Rafael está certo em processar o Estado.

O segundo grupo, em contrapartida, vai:
- utilizar o cálculo utilitarista para apontar limites do direito individual;
- apresentar uma perspectiva mais coletivista que, em sintonia com a realidade brasileira, faça contrapontos ao direito individual;
- buscar uma fundamentação que justifique, do ponto de vista orçamentário e de outros pontos de vista, porque não é correto o Estado bancar tratamentos caros para um ou outro indivíduo.

Atenção: os grupos têm de ter um número equivalente de pessoas. Os alunos da turma devem formar uma lista e articular previamente esse equilíbrio. Quando eu chegar para o debate, os grupos já devem estar montados, com todos os alunos inscritos. Se isso não tiver acontecido, para fins de rápido encaminhamento, eu dividirei a turma em pares e ímpares. Os pares constituirão o grupo 1, os ímpares, o grupo 2.

Os critérios para o debate são os seguintes: 

- Ouvir o outro até o final, em silêncio, sem interrompê-lo;
- Prestar atenção no que o outro diz, ponderar, refletir se ele não tem razão no que fala;
- Fazer uso da palavra de forma argumentativa, ou seja, trazendo elementos sólidos, resultantes de reflexão e pesquisa. Não serão tolerados rodeios, improvisações ou brincadeiras;
- Utilizar, durante a arguição, uma referência ao filme "Parasita";
- Em hipótese alguma levar a discussão para o lado pessoal. Lembre-se de que estamos debatendo ideias e não pessoas;
- O objetivo desta atividade é desenvolver nosso potencial argumentativo, explorando os pontos, enriquecendo e ampliando a conversa. Não haverá "vencedores" do debate.

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Clipping:

Um único remédio custou ao SUS R$2,44 bilhões em 11 anos, revela estudo
(Folha de S. Paulo - Cláudia Colucci - 02/03/2020)

Patente de um dos remédios mais caros do mundo agora é pública
(Agência Brasil - 20/04/2018)
 

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