quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O conceito de mímese (3ºs anos)


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Conceito que foi tema de importantes debates na Antiguidade, mímese apresenta contornos bem diferentes na concepção de arte de Platão e de Aristóteles. Para tratar desse assunto, eu reproduzo abaixo o verbete da Routledge Encyclopedia e faço alguns acréscimos. 

Mímese é um dos mais antigos e fundamentais conceitos de estética produzidos no Ocidente. Desde a antiguidade, o conceito foi difundido e ao longo da história reinterpretado por diferentes segmentos artísticos, como a literatura, a música e a pintura. A princípio, mímese significa imitação, representação, cópia de alguma coisa. Ele pode ter, ainda, a finalidade de recordar algo, de apresentar uma mensagem ou mesmo exprimir algum ensinamento. 

Na antiguidade grega temos uma cultura majoritariamente oral, basta lembrarmos as audições, os recitais de oradores e poetas, as performances dos sofistas ou ainda a representação feita por atores durante encenações das tragédias. Tudo isso compunha o substrato do conhecimento, e também da própria ética, ou seja, dos valores partilhados pelos gregos. Daí ser de grande interesse para um filósofo como Platão discutir a arte do seu tempo, chamando para si a tarefa de retratar e avaliar o papel de artistas como os poetas-rapsodos e os atores.

A relação entre mímese com figuras de autoridade do passado (pais, heróis e autores) era algo profundamente arraigado na cultura grega antiga. Trata-se da necessidade de relembrar as proezas, os grandes momentos e os eventos singulares que ocorreram na história, cujos personagens, feitos e ditos, também se tornaram inesquecíveis. Essa necessidade de trazer de volta à memória os eventos do passado dá ao conceito de mímese um significado mais próximo ao de reatualização. O ato de reatualizar, por meio da poesia, do teatro ou de qualquer outra forma literária, se impõe a nós por conta de dois fatores:

a) os eventos a que eles correspondem foram consagrados ao longo do tempo, possuem um valor especial, mais importante do que a nossa realidade cotidiana; por conta disso, nós nos sentimos impelidos a rememorá-los, para inclusive não cairmos na abstração e na irrelevância;
b) ao reatualizá-los, somos como que inspirados e iluminados pelo seu esplendor, o que nos permite escapar da banalidade cotidiana.

Mímese carrega uma ambivalência: dependendo das circunstâncias, o conceito pode significar a inferioridade da atualização comparada ao fato ocorrido ou a relativa superioridade que ela adquire por sua participação temporária no prestígio, na glória daquele fato.
Tornou-se um dos lugares-comuns mais imediatamente lembrados as críticas de Platão dirigidas aos artistas. Para ele, a preocupação da filosofia é a de alcançar a verdade. Mas, na República (livro II), por exemplo, nós vemos Sócrates advertindo que nós “não podemos levar a sério a poesia como algo capaz de alcançar a verdade”, e que “aquele que escuta a poesia tem de ficar alerta contra suas seduções”. 

Ou seja, para Platão, a busca da verdade não pode ser confundida com o prazer da arte retórica, o qual, na época seduzia multidões, mas sem critérios e interesses mais profundos. 

Por conta disso, na mesma linha, também o teatro será rechaçado. Neste caso, o problema está nos atores, que estão mais interessados em persuadir o auditório do que chegar à verdade. Ainda na República, Sócrates aparece desferindo uma crítica ferrenha a Homero, pai e maior de todos os poetas, afirmando que os ensinamentos deixados por ele são testemunhos inconvenientes à educação da juventude. 

O trabalho do poeta, assim como o do carpinteiro que confecciona a cama (exemplo dado por Sócrates no livro X da República) é um trabalho imitativo, uma cópia. E por ser cópia, não pode ser comparado à realidade.

São na verdade três os usos empregados por Platão na República:

a) No livro II, falando do conteúdo da poesia, aplica o termo, de forma geral, à relação de significado entre as palavras e as entidades a que elas se referem;
b) No livro III ele explora o fato de que, na tragédia grega, seres humanos comuns desempenham o papel de heróis lendários e deuses, a fim de criar a ficção. Aqui temos uma forma peculiar de mímesis como um termo técnico que abrange um gênero literário específico: o drama, no qual os artistas nunca falam em sua própria voz, ao contrário da narrativa e de outras formas;
c) No livro IV, ele estabelece a tripartição da alma e explica como níveis mais baixos da realidade imitam níveis mais altos. No livro X ele conclui que toda poesia e mesmo as formas não dramáticas são ilusoriamente miméticas, pois estão a três graus da realidade.
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Aristóteles mostra uma visão diferente de Platão. Nele não encontramos essa conotação negativa e mímese significa simplesmente representação, algo que indica que o mundo narrado em um poema, por exemplo, é muito semelhante a ele, embora não seja idêntico. Nesse sentido, a visão aristotélica se aproxima bastante do conceito moderno de ficção.

É na Poética que encontramos as críticas de Aristóteles ao tratamento dado por Platão ao conceito de mímese. Aristóteles estende o significado do conceito para além do gênero dramático, retirando-lhe qualquer pecha de inferioridade na comparação com uma realidade independente. 

Há uma crítica a Platão, no sentido de que se mímese envolve qualquer literatura imaginativa, então os próprios diálogos platônicos são miméticos, visto que descrevem não uma realidade que realmente acontece, mas o tipo de coisa que poderia acontecer.

A Poética de Aristóteles é uma teoria sobre a construção que o poeta faz (poiésis) de uma representação (mimesis) da ação (práxis) do personagem. Numa tragédia, por exemplo, não observamos o ator cometer aquelas ações horrendas, até porque isso seria desagradável, mas o vemos representar, imitar (mimesis) aquelas ações, e esse gesto nos proporciona um prazer reflexivo.

A mímesis impede a poiésis do poeta de construir uma praxis real, mas as possibilidades que ela descreve são reais, e não fictícias, daí vermos Aristóteles ressaltar o componente cognitivo dentro do prazer estético. Com Aristóteles, mímese não é mais uma arte enganadora, mas um universal antropológico que nos proporciona um prazer cognitivo, algo que somente nós humanos podemos fazer (os animais não imitam). 

Ao ver os fatos se desenrolarem e os personagens representarem, nós reconhecemos e até dizemos “este homem” ou “este caso” do passado é semelhante àquele caso (atual) que eu ouvi ou vi. Portanto o mundo retratado na poesia não é um mundo esvaziadamente fictício, mas uma versão razoável de nosso próprio mundo real. O poeta não nos mostra o que aconteceu lá trás ou o que está acontecendo, ele mostra o tipo de coisa que poderia ter acontecido, o que pode acontecer.


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